domingo, 3 de outubro de 2021

Suor & Cio

 


                                             Indigesta

 

ê fome negra incessante febre voraz gigante

ê terra de tanta cruz

 

onde se deu primeira missa índio rima com carniça

no pasto pros urubus

 

oh! My  Brazyl ainda em alto mar  Cabral quando te viu foi logo gritando:  terra à vista!  e de bandeja te entregando pra união democrática ruralista.

por aqui nem só beleza nesses dias de paupéria
nação de tanta riqueza país de tanta miséria

 

 Tecidos sobre a Terra

Terra, antes que alguém morra escrevo prevendo a morte arriscando a vida antes que seja tarde e que a língua da minha boca não cubra mais tua ferida

entre aberto em teus ofícios é que meu peito de poeta
sangra ao corte das navalhas e minha veia mais aberta é mais um rio que se espalha

amada de muitos sonhos e pouco sexo deposito a minha boca no teu cio e uma semente fértil
nos teus seios como um rio

o que me dói é ver-te devorada por estranhos olhos
e deter impulsos por fidelidade

ó terra incestuosa de prazer e gestos não me prendo ao laço dos teus comandantes só me enterro à fundo
nos teus vagabundos com um prazer de fera
e um punhal diamante

minha terra é de senzalas tantas enterra em ti milhões de outras esperanças soterra em teus grilhões a voz que tenta – avança plantada em ti como canavial que a foice corta
mas cravado em ti me ponho a luta mesmo sabendo – o vão estreito em cada porta

 

 MOENDA

 

usina
mói a cana
o caldo e o bagaço

usina
mói o braço
a carne o osso

usina
mói o sangue
a fruta e o caroço

tritura suga torce
dos pés até o pescoço

e do alto da casa grande
os donos do engenho controlam

:

o saldo e o lucro

 

 carne proibida

 

o preço atual

proíbes que me coma

mas pra ti estou de graça

pra ti não tenho preço

sou eu quem me ofereço

a ti: músculo e osso

leva-me à boca

e completa o teu almoço

Brazilìrica Pereira : A Traição Das Metáforas

         


                                                          
1968

 

ou

: a investigação

uilcorneana

 

 

quem és tu uilcon pereira

que foste fazer na sorbonne?

 

ter aulas com Sartre

ou cantar a Simone?  


drummundana itabirina

 

fedra margarida a resolvida desfilava pela última vez

portando falo. Decidira decepar o pênis e desnudar de vez a sua outra mulher. braziLírica

amanheceu incrédula:

manchetes, vozerios, falatórios, assembleias,

faixas, cartazes. por todas as vias, multivias,

multimeios, os ofendidos habitantes brazilíricos

inconformados com a fedra passearam em

plebiscito vociferando Não ao Sim.

 

E margarida flor impávida lá se foi beira-mar olhando estrelas no cruzeiro. Mas César que não é Castro continuou a pigmentar seu mastro na outra parte da tela, e um dia fedra sorrindo, com o pênis/baton da louca, foi ao boca de luar da fedra e voltou com o luar na boca. 


                           poema 1

 

entre a pele e a flor no asco

com meia sola no sapato

o meu vapor mais que barato

industrial e infonáutico

entre o couro de zinco e o cabelo

mar de indecifrável plástico

por entre o bronze dos teus pelos

entre o gozar cibernético

em todo sangue magnético

a minha carne pós poeira

entre a flor e  o vaso de barro

na homepage ou no carro

na camisinha de vênus

vírus H corroendo

em vita/plus ou na sala

meu olho gótico TVendo

BraziLírica lâmpada fala

por um tanto ou tanto quase

cento e dez em cada fase

não sendo assim acaba sendo


                            poema 2

 

debaixo da sacada a escada torta

pássaro sem teto acima do delírio

coração de porco crava no oco da noite

a faca cega, punhal de cinco estrelas

na constelação do cão maior

por onde Úrsula nua passeia

Dédala de Dandi Deusa de Dali lua de Dadá

 

no coração do pintor sem fronteiras

acima do pé de abóbora embaixo do pé de cajá

Malásia não é aqui Espanha não além mar

Salvador não é Dali

a mulher que eu quero mesmo

e uma Dedé que não Dadá

Bia de Dante do inferno Itamarati/Itamaracá

constelação ursa maior

pra Dadá meu coração pra Dedé não sou cantor

quando quero quero mesmo

espuma nylon pele tecido isopor.


              poundianna

 

Torquato era uma poeta

que amou a Ana

Leminski profeta

Que amou Alice

 

um dia pós veio Uilcon torto

pegou a Jóia di Ana

 e juntou na PereirAlice

 

com o corpo de alma das duas

foi Bouvoir Assombradado

pra lá de França ou Bahia

roendo o osso do mito

pois tudo que Sartre dizia

o Anjo jurou já ter dito

 

Nonada

:

-  Biúte ria


poema seis

 

estando quase

sempre e mesmo

estando

esteja breve

assim como uma letra

escrita a lápis

numa estrela

aquarela rabiscada a giz

 

estando por um raio

esteja por um triz

 

curto circuito 


quem disse que amor
é mudo
surdo
cego
não sabe o que carrego

em meu estado de sítio
em meu instante  de surto

fulinaimicamente

 


                              fulinaimicamente

 

do som dessa palavra  nasce uma  outra palavra fulinaimicamente  no improviso do repente do som dessa palavra nasce uma outra palavra fulinaimicamente

brasileiro sou bicho do mato brasileiro sou pele de gato brasileiro mesmo de fato yauaretê curumim carrapato

em rio que tem piranha jacaré sarta de banda
criolo tô na umbanda índio fui dentro da oca
meu destino agora traço dentro da aldeia carioca

Jackson do Pandeiro Federico Baudelaire nas flores do mal me quer Artur Rimbaud na festa de janeiro a fevereiro Itamar da Assumpção olha aí Zeca Baleiro  no olho do mundo cão

 

Obs.:musicada e gravada por Naiman no CD Poesia Para Desconcertos com produção de Fil Buc - a ser lançado em breve

 

fulinaíma

 

misturei meu afro reggae a muito xote do xaxado ainda fiz maracatu maxixe frevo já juntei ao fox trote
quando dancei bumba-meu-boi em Pernambuco

fulinaíma é punk rock rasgando fados em bossa nova
feito blues para pintar a pele branca de vermelho
e repintar a pele preta de azuis...

botei sanfona no rufar desse baião tambor de minas capixaba no lundu no Paraná berimbau de capoeira
dancei em noites de lual no Maranhão

fulinaíma é punk rock rasgando fados em bossa nova
feito blues para pintar a pele branca de vermelho
e repintar a pele preta de azuis...

mas em São Paulo pedras quando rolam pelos céus de nossas bocas meu irmão fulinaíma azeita o caldo da mistura para fazer o que não jazz ainda soul

porção de restos de alguma partitura que algum músico com vergonha recusou por ser estranho o que naquilo descobriu mas se a gente canta no cantar essa ternura é que mamãe mamãe mamãe Macunaíma ainda chora pelas matas do Brasil

obs.:musicada e gravada por Reubes Pess no CD Poesia Para Desconcertos – com produção de Fil Buc - a ser lançado em breve

 

 pornofônico confesso


se este poema inocente primitivo natural indecente
em teu pulsar navegante entrar por tua boca entre dentes

espero que não se zangue se misturar o meu sangue em teu pensar quando antropo por todas bocas do corpo em total pornofonia na sangração da mulher

me diga deusa da orgia se também tu não me quer quando em ti lateja e devora palavra por palavra
por fora dentro e por fora em  pornografia sonora

me diga Lady Senhora nestes teus setenta anos
se nunca gozou pelo ânus me diga Bia de Dora
num plano lítero/estético qual humano ou cibernético que te masturba ou te deflora

 

 vampiresco

um conto mínimo 2

 

o senhor dos anéis não mostra os dedos

muito menos o coração Bradesco onde um corpo na lama menos Vale que 1 real rasgado na boca do bueiro

 

poética 93


Tenho nojo do Agro 

Negócio que me dá asco
por tanta perversidade

quem planta veneno
é carrasco
assassino da humanidade


antes que seja tarde

 

qualquer palavra é um risco 
qualquer poema eu arrisco 

mesmo quando cilada
bala carro usado facada
compra venda laranja goiabeira

 

o lança chamas no circo

o dado lance no jogo

a mulher que come fogo

congresso de picadeiro

trapacear no senado é mágica

executivo carniceiro

 

poema não é brincadeira

comum baseado no ventre
farinha prisão entridentes
a farsa no país é trágica
e o povo é sempre o indigente

mar de lama

    


mar de lama  

 

aqui tem os mais profundos 
bem mais fundo 
os mais imundos minerais 

 

o mar de lama

mata a mata

não só ferro

não só ouro

não  só prata

mata muito mais

mata também

o couro cru

a carne viva

 

meus oriundos ancestrais


onde a poesia

se espalha 

a língua nativa

não é fogo de palha 

               é brasa viva  

                                 

indicativo


olho dentro do teu olho
para que olhe na minha cara
e cara a cara me diga
a quantas anda a nossa briga
do nosso amor pela ética

se é tão estranha a poética
de só pensar lá na frente
que até perdi a conta
nesse pretérito faz de contas
das quantas vezes
que já votei pra presidente

e o nosso país do futuro
que nunca chega no presente

 

                boca do inferno

 

por mais que te amar seja uma zorra

eu te confesso amor pagão

não tem de ter perdão pra nós

eu quero mais é o teu pudor de dama

despetalando em meus lençóis

 

e se tiver que me matar que seja

e se eu tiver   que te matar que morra

em cada beijo que te der amando

só vale o gozo quando for eterno

infernizando os céus

e santificando a boca do inferno


satânica

 

 eu sou ator

poeta

cineasta

produtor cultural

 

vivo pintando o sete

nos porões da catedral

 

tenho cabeça

tronco

membro sexual

 

não tenho a cara da morte

trafego de sul a norte

no destino tracei minha sorte

 

eu sou   Universal

 

 poema das invenções



fosse essa jura secreta
brazilírica fulinaimagem
mutações em pré-juizo
muito além da mesa posta
couro cru em carne viva
lambendo suor e cio
como corrente de rio
deságua no além mar

com os meus olhos nos navios



profana sagaranagem
nos gumes da carnavalha
teu corpo em Maracangalha
fulinaimando comigo
agulha no teu umbigo
como uma faca entridentes
a língua na flor da boca

intransitiva linguagem

na carnavalha indecente

ereto poema crescente
rasgando a carne no grito
o gozo nos nervos de dentro
roendo os ossos do mito

 

gomes & gumes 

 

 

todo poema tem dois gomes toda faca tem dois gumes

de um eu não digo os nomes da outra não mostro os lumes

se um corta com palavras a outra com corte mesmo

se um é produto da fala a outra do ódio a esmo

todo poema tem dois gomes toda faca tem dois gumes

e um amor cego nas asas brilhante de vagalumes

se em um a linguagem é sacana

na outra o corte é estrume

todo poema tem dois gomes toda faca tem dois gumes

se em um peixe é palavra na outra o brilho é cardume

é fio estrela na lavra mal cheiro vício costume

de um eu não digo os nomes da outra não mostro os lumes

se em um a coisa é sagrada ofício provindo das vísceras

na outra a fé é lacrada hóstia servida nas missas

se em um é cebola cortada aroma palavra carniça

na outra o ferro, é tempero, fé cega - fome amolada

 

– poema é só desespero

Ainda Estamos Aqui

poema a(r)mado   todo os dias capino a esperança escavando outras palavras no chão desse quintal   e quando escrevo com enxada              ...